Desenvolvimento
de Maus Hábitos Posturais na Infância
Em
diversos países, crianças em idade escolar, vêem apresentando
um aumento considerável de dores nas costas a ponto
de tal situação ser tida como epidêmica(1),
mais de 50% das crianças, à partir de 11 anos, tem
ou já tiveram dores nas costas.
Os fatores que levam a
este aumento são vários e cumulativos ao longo dos
anos, fazendo com que 80%(2)
da população adulta chegue a ser afetada por dores
nas costas.
É muito fácil observar
uma criança de 4 anos de idade com uma bela postura
associada a agilidade e facilidade de movimento, elas
estão o tempo todo mudando o seu movimento de acordo
com o seu humor. Elas não precisam ficar imobilizadas
em um lugar pré-determinado por um tempo definido.
Em contraste, quando a
maioria das crianças deixa a escola, a sua espontaneidade
desapareceu, seus movimentos e atenção são restritos
e enraizados em hábitos posturais não conscientes.
O que leva a criança, ao
longo dos anos, a desenvolver maus hábitos que produzem
um quadro crônico de dores nas costas?
Os especialistas enumeram
vários fatores que contribuem para a formação destes
maus hábitos posturais. O primeiro deles é a imitação.
O processo de aprendizagem na infância se dá através
da observação das pessoas à sua volta, dos hábitos
posturais dos adultos e das suas reações físicas e
mentais às situações do cotidiano(3).
Outro fator pode ser encontrado no medo, medo como
mecanismo de proteção físico e mental que a criança
aciona ao longo dos anos para lidar com as situações
estressantes, incertezas e ameaça de fracassar.
Outra causa dos maus hábitos
de postura e movimento se encontra nas salas de aula:
inadequação do mobiliário escolar à criança(4),
longos períodos sentados em sala de aula para cumprir
a grade escolar(5), peso
das bolsas e mochilas com material didático(6),
introdução do uso de computadores(7),
entre outros.
Todos esses fatores geram
o desenvolvimento de hábitos posturais prejudiciais
que levam a desorganização do equilíbrio e coordenação
da criança, produzindo tensão muscular em excesso,
ombros para frente ou enrijecidos, costas arqueadas,
dificuldade de atenção. Essa interferência na coordenação
tende a afetar a criança em todos os níveis de sua
vida.
Como podemos reverter este
quadro?
É neste momento que a Técnica
Alexander(8) apresenta
uma grande contribuição para esta questão tão atual
e pungente. À partir dos princípios da Técnica
Alexander esta questão não é considerada apenas
do ponto de vista externo, como o da influência do
mobiliário inadequado nas escolas, das mochilas muito
pesadas e mesmo dos padrões psico-físicos familiares,
mas do ponto de vista do sujeito, de como a criança
pode ser ajudada a prevenir o desenvolvimento e a
fixação de hábitos posturais nocivos. A Técnica
Alexander trabalha com a criança em atividade,
como ela está se usando no seu dia-a-dia, como ela
se senta, se movimenta, como tenta alcançar os seus
fins, como a sua atenção se encontra engajada e coordenada
com o seu corpo, o seu desejo e seus objetivos.
O trabalho da Técnica
Alexander é um trabalho de educação progressivo
e constante, onde aprendemos a prevenir os hábitos
inconscientes adquiridos e a desenvolver bons hábitos
posturais conscientes em atividade. Ela dá novas ferramentas
à criança para pensar e se movimentar com maior liberdade,
aprimorando a sua percepção de si mesma e a sua coordenação
psico-física.
Lembrando as palavras do
filósofo e educador americano John Dewey sobre o método
desenvolvido por F.M. Alexander:
"O método não é um remédio,
é uma educação construtiva. Ele se aplica mais adequadamente
às crianças, à geração em fase de crescimento, de
modo que elas possam vir a possuir o quanto antes
na vida um padrão correto de apreciação sensorial
e autojulgamento. Quando uma parcela razoável de uma
nova geração tornar-se adequadamente coordenada, teremos
certeza, pela primeira vez, de que homens e mulheres
no futuro poderão postar-se sobre seus próprios pés,
dotados de um equilíbrio físico satisfatório, para
enfrentar com prontidão, confiança e felicidade, ao
invés de medo, confusão e descontentamento, os golpes
e contingências do meio externo".(9)
Para olharmos para esta
questão como sociedade precisamos de um esforço conjunto
e coordenado entre família, escola e profissionais
afins (profissionais em ergonomia , professores da
Técnica Alexander, pedagogos, professores de educação
física, entre outros). É muito importante pensarmos,
como civilização, qual o legado que estamos deixando
para os nossos filhos.
© Valeria Campos
(1)
www.zoomlearning.com.uk/at/back_pain.shtml
(2) www.chiroweb.com
(3) www.alexandertechnique.com/articlres/develop.
"How Children Develop Harmful Habits of Posture and
Movement", Robert Rickover
(4)www.alexander-tech.com
(5) Estudo realizado por Trousler 41.6% das crianças
tem dores nas costas quando sentadas na sala de aula
: www.chiroweb.com
(6) www.spine-health.com
(7) Aumento em 60% de queixas de crianças de dores
nas costas, na nuca, e LER relacionadas à introdução
de computadores nas escolas: www.alexandertechniqueconsultantas.com
(8) Para maiores informações sobre a Técnica Alexander
consultar o site www.tecnicadealexander.com
(9) Alexander, F. M. "Ressurreição do Corpo". Ed.
Martins Fontes, 1993, pg.190
A Técnica Alexander na
Dança
"A
Técnica Alexander auxilia a integrar cada bailarino
e também todos os sistemas a que ele já foi exposto."
Trisha Brown
A Técnica Alexander
é um método de reeducação prático e simples e não
deve ser identificado com técnicas de relaxamento,
massagem ou expressão corporal. Esse método consiste
em observar os hábitos de tensão e interferência que
vão sendo automatizados com o tempo e, gradualmente,
aprender a preveni-los. É uma prática que resulta
em um melhor funcionamento dos reflexos naturais do
organismo, criando condições ao aluno de responder
aos estímulos diários com mais inteligência e liberdade
de escolha. (Jones 1976)
O intuito das aulas da
Técnica Alexander em um curso de dança, é ensinar
princípios que são fundamentais para prevenir determinados
problemas, e que podem mudar o olhar que os dançarinos
têm sobre si mesmos e sua dança. Neste processo de
educação, certos princípios -- uso e funcionamento,
meios pelos quais, controle primordial, apreciação
sensorial imprecisa, inibição e direção -- norteiam
o trabalho. São princípios únicos, traçados por Alexander,
que estão sendo postos em prática há mais de 100 anos.
Apreciação Sensorial Imprecisa
Uma das observações feitas
por Alexander em sua pesquisa foi a de que a percepção
que tinha sobre si mesmo não era precisa. Os mecanismos
sensoriais que normalmente são o guia para executar
qualquer atividade não funcionavam com precisão. Alexander
identificou que a repetição contínua de padrões de
descoordenação no uso do corpo leva a uma apreciação
sensorial imprecisa. (Tinbergen 1974)
A ausência de precisão
cinestésica é um dos grandes problemas da tentativa
de mudar padrões de movimento. Tende-se a andar em
círculos em processos de aprendizagem, pois, quando
alguma dificuldade surge, a tendência é a de se esforçar
ainda mais na mesma direção. Como resume MacDonald
(1987): "o que normalmente
acontece é que apenas fazemos a mesma coisa novamente
só que com uma tensão extra. Em outras palavras fazemos
como antes, apenas pior." Por exemplo, quando
um professor pede ao aluno para executar um movimento
de determinada maneira, a única referência que o aluno
usa é sua sensação do que seria a maneira correta
de fazer tal movimento. A partir do momento que esta
sensação do que é correto possa estar falha, o aluno
tem grandes chances de estar executando o movimento
de maneira prejudicial.
Meios e Fins
Outra observação feita
por Alexander foi sobre o padrão vigente que começa
a se estruturar desde a infância: o de se pensar exclusivamente
no resultado a ser alcançado. Isso não nos faz cultivar
a idéia do processo que se deve seguir para alcançar
os objetivos determinados. Grande parte dos problemas
e acidentes que acontecem com os dançarinos está relacionado
com a ausência de observação e atenção ao momento
presente. É fundamental que os estudantes aprendam
a manter o pensamento conectado nos meios adequados
para que o movimento aconteça sem bloqueios. Isto
pode parecer simples, mas saber a hora de parar, de
desativar padrões de sobrecarga para permitir que
os reflexos naturais de postura e equilíbrio possam
ser ativados é uma das coisas mais difíceis de se
aprender.
Controle Primordial
Uma descoberta fundamental
de Alexander foi identificar a relação de equilíbrio
da cabeça com a coluna vertebral, explicada de maneira
bastante clara pelo escritor Aldous Huxley (1945):
"...existe no homem, como
em todos os vertebrados, um controle primordial que
condiciona o uso adequado do organismo como um todo.
Quando a cabeça está em relação apropriada com o pescoço,
e o pescoço está em relação apropriada com o tronco,
então ( e aqui é uma questão de puro fato empírico)
todo o organismo psico-físico está funcionando no
melhor de sua capacidade natural." Alexander
chamou esta organização de Controle Primordial, pois
qualquer desequilíbrio na relação da cabeça com pescoço
e com o torso descontrolava o uso das partes do corpo.
Segundo Alexander (1995): "A totalidade do organismo
é responsável por problemas específicos."
A cabeça equilibrada
em cima da coluna vertebral, ativa o funcionamento
dos reflexos naturais de postura e equilíbrio. A partir
deste princípio tira-se o foco da idéia de certo e
errado. Estes mecanismos são inatos, a ação desejada
é permitir que estes se manifestem sem bloqueio ou
interferência. Quanto mais os alunos exercitam esta
experiência em sala de aula mais claro fica para eles
desfazer qualquer tipo de interferência que possa
atrapalhar esta organização natural.
Inibição Neuromuscular e
Direção Consciente
Alexander desenvolveu através
de sua experiência direta dois princípios bastante
singulares em seu trabalho, chamados de Inibição e
Direção. Ele trabalhou na frente de espelhos para
comprovar como estes princípios podiam influenciar
o uso de seu corpo e pensamento de uma maneira nova.
O princípio da Inibição
consiste na não ativação de mensagens que o cérebro
envia para o corpo. A cada estímulo do cotidiano há
uma resposta, já gravada pelo cérebro, que é enviada
aos músculos através do sistema nervoso. A prática
da idéia da Inibição seria a possibilidade de, ao
estímulo de levantar um braço ou uma perna, se tenha
oportunidade de não responder a este estímulo mecanicamente,
dando condições de uma nova possibilidade de resposta.
O princípio da Direção
é ter uma orientação consciente sobre o caminho de
responder a estes estímulos. Não como um padrão ou
postura certa mas com uma clareza mental sobre o que
se deseja. Nas palavras de Alexander
(1995): "Não existe tal coisa como posição correta
mas sim direção correta".
Curso de Dança
Desde 2001 o Departamento
de Dança da UniverCidade, no Rio de Janeiro, oferece
aulas da Técnica Alexander no curso de graduação.
Alguns alunos que já tinham tido contato com este
trabalho fora da universidade viram a necessidade
desta prática no estudo da dança e requisitaram a
inclusão da Técnica Alexander no curso. As turmas
são de níveis variados. As aulas acontecem duas vezes
na semana com 1h e 40mim de duração. O desafio foi
transformar um trabalho basicamente individual em
uma aula em grupo, pois o ensino da Técnica Alexander
exige uma atenção individualizada com cada aluno por
parte do professor.
A idéia do corpo e mente
como coisas distintas nos leva a separar as experiências
em sala de aula. A intenção no curso é que os alunos
de dança experimentem integrar ação e pensamento.
A concepção de unidade psico-física pode ser de grande
valia para o dançarino. O ser humano como estrutura
integrada onde razão , emoção e físico caminham juntos
fazendo com que o fluxo de energia flua sem bloqueios
é um princípio que o bailarino pode assimilar em sua
dança.
Na aula, procura-se despertar
a atenção sobre o momento que precede o movimento,
como corpo e mente se organizam para executar uma
tarefa. Existe uma série de reações psico-físicas
entre estímulo e resposta que normalmente são inconscientes
e que podem limitar a performance do dançarino, pois
as respostas automatizadas interferem no fluxo de
natural do movimento levando a uma sobrecarga de trabalho.
O corpo não estando livre não permitirá um movimento
livre. Isto explica porque é tão difundida a idéia
de que é necessário um esforço muscular excessivo
para se ter um bom resultado.
A aula se divide em duas
partes, na primeira parte os alunos são trabalhados
individualmente. O professor, com um toque suave,
usa suas mãos para dar feedback ao aluno sobre como
ele está usando a si próprio naquele momento, desativando
padrões de mau uso e estimulando os mecanismos de
coordenação. Na segunda parte da aula fazemos um trabalho
em grupo onde estimulamos os alunos a observar e identificar
o que realmente acontece no momento da ação. Como
ao longo do semestre vamos criando um ambiente tranqüilo
nas aulas, sem medo, competição ou preocupação com
o erro, os alunos ficam mais encorajados a se expor
através de seqüências de movimentos de dança na frente
dos colegas. Começamos a treinar o olhar para o que
realmente está acontecendo por trás do movimento,
o que está acontecendo entre o estímulo e a resposta,
qual sua direção, como se está interferindo nos mecanismos
de equilíbrio e coordenação. Atividades cotidianas
como andar, sentar e levantar de uma cadeira, ficar
de pé e falar são repetidas na aula. Através delas
vamos identificando padrões automáticos que acabam
por interferir prejudicialmente num uso adequado dos
mecanismos do corpo. Ao longo do período vamos introduzindo
movimentos de dança trazidos de outras aulas ou de
trabalhos já realizados e identificamos os mesmos
padrões de uso habitual dos movimentos cotidianos.
Observamos o quanto estamos presos e restritos em
relação a nós mesmos. Tais padrões repetitivos, embora
identificados no movimento, se originam no cérebro
e só poderão ser trabalhados quando agirmos na origem,
nos hábitos mentais e em como ele se manifesta. Durante
as aulas podemos observar que o mais difícil para
os estudantes é deixar de lado a idéia da forma certa.
Este hábito aprendido desde cedo leva a uma rigidez
de pensamento muito forte. Ao mesmo tempo, a falta
de observação sobre si próprio, a ausência de clareza
mental sobre o que se quer executar e principalmente
a falta de meios adequados é o que leva o bailarino
a uma série de problemas bastante comuns como tendinites,
dores musculares, problemas articulares, falta de
controle muscular, dificuldades respiratórias, diminuição
de rendimento, confusão mental, dentre outros.
O
filósofo e educador John Dewey, comentando sobre sua
experiência com a Técnica Alexander, ressalta: "Cada
aula leva o processo um pouco mais adiante e confirma,
de forma mais profunda e convincente, as asserções
feitas. À medida que se avança, abrem-se novos campos,
vêem-se novas possibilidades, depois realizadas; o
aluno percebe que está se desenvolvendo continuamente
e dá-se conta de que está iniciado um processo de
crescimento sem limites." (1992)
Ao longo do semestre deixamos
claro para o aluno que ele está apenas começando um
processo de pesquisa consigo mesmo. Os princípios
aprendidos e praticados em sala de aula servem como
guia deste processo. A Técnica Alexander é
um instrumento com o qual o aluno pode refletir sobre
seu uso físico e mental na dança ou em qualquer atividade
na vida.
© Roberto Reveilleau
BIBLIOGRAFIA:
ALEXANDER, F. M. Constructive Conscious Control of the
Individual, 1923, Ed.Gollancz, 1987. ALEXANDER, F. M.
O Uso de Si Mesmo, Ed. Martins Fontes, 1992.
ALEXANDER, F. M. A Ressurreição do Corpo, Ed. Martins
Fontes, 1993.
ALEXANDER, F. M. Articles and Lectures, Ed. Mouritz,
1995.
BROWN, T. Dancing at the Edge of Balance, Entrevista
publicada na ACAT, 1986.
JONES, F.P. Body Awareness in Action, Ed. Schocken Books,
1976.
HUXLEY, A. Ends and Means, The Saturday Review of Literature,
1945.
TINBERGEN, N., Ethology and Stress Diseases, Science,
Vol.185-4145:28, 1974.
Educação
Somática como Instrumento de Aperfeiçoamento
para o Bailarino
A
vida do bailarino é uma repetição incessante de ensaios
e aulas visando um domínio cada vez mais preciso de
seu corpo. A repetição de movimentos, por várias horas
seguidas, é uma prática cotidiana do profissional
da dança. Problemas surgem quando, com objetivo de
conseguir o controle de determinados movimentos e
posturas, padrões neuromusculares inadequados de uso
do corpo vão lentamente se instalando e se tornando
repetitivos. Esses padrões, ao longo dos anos, tornam-se
habituais e automáticos, gerando interferências nos
mecanismos de coordenação de postura e movimento,
criando insegurança e, conseqüentemente, aumentando
a propensão a lesões.
Um exemplo disso é a perda
do equilíbrio natural da cabeça em relação à coluna
vertebral causado por um exagerado grau de tensão
muscular no pescoço que pode afetar todo o sistema
de coordenação e equilíbrio. Isso cria um estado de
permanente excesso de tensão em determinados grupamentos
musculares e ao mesmo tempo uma falta de tônus em
outros, interferindo nos reflexos posturais, principalmente
na musculatura das costas relacionada à manutenção
de suporte postural (Ballard, 1995). Tal desequilíbrio
leva a experiências bastante comuns na maioria das
pessoas de se contrair para cima, tentando manter
um padrão de enrijecimento da caixa torácica ou de
se desmontar, arqueando as costas. O resultado é um
exagero nas curvas naturais da coluna, uma pressão
prejudicial nas vértebras e articulações, um esforço
demasiado e um mau relacionamento dos braços e pernas
com o tronco.
Diversas pesquisas têm
identificado uma incidência enorme de bailarinos apresentando
lesões relacionadas diretamente a ensaios e performances
de dança, isso além das lesões reincidentes que se
tornam crônicas e se manifestam periodicamente. (Richmond,
1995). Esta é uma realidade tão comum no meio da dança
que se manifesta na preocupação das companhias de
dança, entre bailarinos, diretores e pessoas ligadas
a organização de apresentações, com a possibilidade
de lesões incapacitarem provisoriamente e às vezes
até permanentemente os bailarinos a ponto de não poderem
cumprir com suas apresentações em andamento ou programadas
(Bowling, 1989). A maior parte das lesões identificadas
nas pesquisas acontece nos membros inferiores, principalmente
tornozelo e pé.
Em
função desse problema, existe hoje uma grande preocupação
de se oferecer ao bailarino e ao estudante de dança
diversas técnicas de educação somática com o intuito
de lhes dar condições de criar instrumentos preventivos
para os problemas de saúde, principalmente advindos
pelo excesso de uso do corpo, que os acompanha durante
sua atividade profissional. Prevenção como concepção
de saúde e bem-estar deve ser o pensamento a ser inserido
no mundo da dança. Sabe-se que apenas tratamentos
localizados e remédios na hora da crise e os exercícios
e aulas tradicionais de preparação e aquecimento não
são o suficiente para estimular a manutenção de uma
boa saúde do bailarino, no que concerne a um uso equilibrado
dos padrões de coordenação e suporte do corpo. Um
bom uso dos mecanismos posturais do corpo são a base
da execução de uma performance talentosa sendo feita
sem prejuízo para o bailarino (Ballard, 1995).
Uma visão holística, através
de técnicas somáticas, pode restabelecer um maior
potencial do bailarino em responder às situações de
sua vida profissional com mais consciência de seus
limites e de suas possibilidades. Minha experiência
ensinando a Técnica Alexander para bailarinos e estudantes
de dança têm demonstrado o quanto é importante o acompanhamento
desse trabalho na sua prática diária. O ritmo intenso
de trabalho, as exigências das apresentações, a grande
quantidade de aulas necessárias para se capacitar,
o pouco tempo de ensaio, a necessidade de se trabalhar
em mais de uma companhia, escola ou academia, todo
esse esquema a que estão expostos os bailarinos vai
gerando desgaste físico e psicológico. Como professor
da Técnica Alexander venho trabalhando muito com bailarinos,
seja através de atendimentos individuais, com companhias
ou na faculdade de dança, e tenho visto um grande
benefício dessa técnica a esses profissionais e estudantes,
pois ela fornece um claro entendimento sobre a organização
do corpo (principalmente em movimento) e explicita
essa relação, hoje tão falada mais ainda difícil de
ser posta em prática, entre corpo e pensamento. Na
aula, procuramos despertar a atenção sobre o momento
que precede o movimento, ou seja, como corpo e pensamento
se organizam para executar uma ação, pois existe uma
série de reações psico-físicas entre estímulo e resposta
que estão automatizadas e que podem limitar a performance
do bailarino interferindo no fluxo natural do movimento.
O corpo que não está livre não permite um movimento
livre.
A aplicação regular deste
trabalho pode criar uma nova experiência sobre o uso
do corpo para que os maus hábitos sejam inibidos estimulando
uma coordenação do corpo mais eficiente e menos propensa
a desgastes e doenças. Uma melhor coordenação dos
mecanismos neuromusculares também estimula a precisão
das sensações que temos sobre postura e movimento
e que, na maioria das vezes, encontra-se deteriorada
pelo excesso constante de esforço muscular. A técnica
cria condições para um ajuste contínuo e equilibrado
do tônus muscular necessário para as sobrecargas advindas
do trabalho físico, e a cada novo desafio o bailarino
fará os ajustes necessários, dando condições ao seu
organismo de se adaptar da melhor maneira possível
a novos desafios em sua dança.
A Técnica Alexander, desenvolvida
pelo ator australiano F.M. Alexander (1869-1955),
é considerada como um dos trabalhos pioneiros do que
hoje se denomina educação somática (Hanna, 1986).
Alexander tinha a concepção do ser humano como uma
unidade psicofísica, isto é, qualquer problema manifestado
em uma determinada parte do corpo estava intrinsecamente
relacionado a um desequilíbrio de todo o organismo
(Alexander, 1992). A partir desta concepção de unidade,
desenvolveu uma prática de trabalho de autoconhecimento
que pode ser aplicada a qualquer pessoa em qualquer
situação. Os princípios da Técnica Alexander influenciaram
uma série de trabalhos terapêuticos através da idéia
de integração entre mente-corpo. A Técnica vem sendo
aplicada há mais de 100 anos principalmente na área
de performance artística em universidades, escolas
e companhias de dança, como por exemplo: Boston Conservatory
Dance Division, American Dance Festival, Trisha Brown
Dance Co. e English National Ballet. A bailarina e
coreógrafa Trisha Brown, em uma entrevista no Center
for the Performing Arts da UCLA, comenta sobre sua
experiência com a Técnica Alexander enfocando sua
importância para os bailarinos: "Acredito que necessitamos
de uma variedade de habilidades. A Técnica Alexander
auxilia a integrar cada bailarino com todos os sistemas
a que ele já foi exposto".
Artigo publicado no site www.conexaodanca.art.br
© Roberto Reveilleau
Bibliografia:
-Alexander, F. M.; Constructive Conscious Control
of the Individual, Ed.Gollancz, 1923/1987.
- Alexander, F.M.; The Universal Constant in Living,
Ed. Mouritz, 1942/2000.
- Alexander, F.M.; Man's Supreme Inheritance, Centerline
Press, California, 1911/1988.
- Alexander, F.M.; O Uso de Si Mesmo, Martins Fontes,
São Paulo, 1932/1992.
- Alexander, F.M.; A Ressurreição do Corpo, Martins
Fontes, São Paulo 1993.
- Ballard, K.; The Nature and Behaviour of Postural
Support System and Improvement of their Performance
by a Rational Aproach - the Alexander Technique, Performing
Arts Medicine News, Vol.3, N. 2, Summer 1995.
- Bowling, A., Injuries to dancers: prevalence, treatment,
and perceptions of cause, BMJ, 1989.
-Juhan, D.; Job's Body: A handbook for Bodywork, Station
Hill Press, 2002.
-Hanna, T., What is Somatics? Somatics, 1986.
- Richmond, P., The Alexander Technique and Dance,
The Alexander Journal, 1991. -Richmond, P., the Alexander
Technique and the Dancer - Preventive Care During
Activity, Performing Arts Medicine News, Vol.3, N.
2, Summer 1995.
- Rodrigue, J.L.; Dancing at the Edge of Balance with
the Alexander Technique, American Society for the
Alexander Technique, http://amsat.ws/articles/dance.html
(acesso em 26/08/2007)
Tocar
um instrumento faz mal à saúde? A Técnica
Alexander responde
"Viver
é uma ação e, nesta ação, nós facilmente permitimos
que as nossas atividades fiquem sobrecarregadas com
hábitos, convenções, e todos os tipos de interferências.
E na ação de viver, seja andando na rua ou aprendendo
a tocar piano, você deve ter em mente que o principal
gasto energético é o do suporte do peso do corpo. Se
o peso do corpo não vem sendo sustentado eficientemente,
começa a haver um enorme desgaste de energia, e todo
o processo de viver não será eficiente..." - Walter
Carrington, Diretor do Constructive Teaching Centre,
Londres
Porque tantos músicos instrumentistas
têm problemas posturais? Independente do instrumento,
de ser amador ou profissional, de ser erudito ou popular,
uma grande parcela dos músicos teve ou tem problemas
relacionados a posturas inadequadas. É só perguntar
a um músico se ele conhece alguém com problemas físicos
para observar como isso esta disseminado, como uma grande
epidemia. Para resolver essa questão muitos músicos
recorrem a uma série de paliativos, que não cabe aqui
identificar, tentando minimizar seu problema para que
possa seguir realizando suas tarefas da prática instrumental.
Na conferência internacional
Health and the Musician, realizada na University of
York, em março de 1997, foram divulgados os seguintes
dados referentes à pesquisa realizada pela Federation
Internacionale des Musiciens em 56 orquestras ao redor
do mundo:(1)
57% dos músicos sofrem de problemas
médicos que afetam seu trabalho;
20% reclamam de cansaço ou dores musculares mais de
uma vez por mês;
25% têm dores mais de uma vez por semana;
55% sentem dores após tocar um instrumento;
41% tiveram a experiência de não controlar os movimentos
de seus dedos;
22% dos músicos tiveram que parar de tocar no ano anterior
devido a dores;
83% consideram que seu treinamento não os preparou adequadamente;
a localização das dores musculares era basicamente no
pescoço e nas costas.
Chegamos então a seguinte
conclusão: será que tocar um instrumento faz mal a saúde?
Será que a estrutura física do homem contemporâneo é
tão frágil que não permite executar determinadas atividades
sem conseqüências desastrosas?
No final do séc. XIX um ator e declamador australiano
chamado F. M. Alexander colocou uma luz sobre esta questão.
Identificou que de uma maneira geral o ser humano vai
adquirindo uma série de maus hábitos posturais. Esses
hábitos automatizados interferem na coordenação do corpo
desde os movimentos mais simples do cotidiano, como
andar, sentar, escrever, falar até os mais complexos
como cantar, dançar ou tocar um instrumento. A repetição
incessante de tais padrões posturais leva a uma infinidade
de conseqüências nocivas a saúde tão comum nos dias
de hoje. Alexander identificou que só um trabalho de
reeducação psico-físico poderia reverter estes problemas.
Este trabalho se iniciou
quando Alexander tornou-se um renomado ator shakespeareano
na Austrália e Nova Zelândia e seus recitais tornaram-se
bastante populares. Sua saúde foi piorando em função
de suas constantes apresentações, problemas respiratórios
e rouquidão tornaram-se uma constante. Sem sucesso com
os especialistas da época, Alexander iniciou uma pesquisa
para solucionar esses problemas. Percebeu que seus problemas
de voz e respiração eram apenas conseqüências de um
mau uso geral. Ficou evidente para Alexander que a coordenação
de sua cabeça com a coluna vertebral constituía-se no
principal fator para a coordenação de todo seu organismo,
e que qualquer desequilíbrio nesta relação descontrolava
todo a maneira de usar o seu corpo. A partir daí, desenvolveu
uma prática, hoje chamada de Técnica Alexander.
Atualmente, mesmo sendo desconhecido
do grande público, seu trabalho vem sendo aplicado em
diferentes instituições de ensino ao redor do mundo.
Está incluída nos currículos de Universidades, Escolas
e Conservatórios de Música como base para uma exploração
criativa, aperfeiçoamento da saúde, clareza mental,
compreensão e expansão do potencial Humano.
Los Angeles Philharmonic
Institute, Royal Academy of Music, Dartington College
of Arts, Juilliard School, Guildhall School of Musicl,
Royal Conservatory of Music em Toronto, Utrecht School
for the Arts e o Conservatoire National Sup.
de Musique et de Danse de Paris são algumas das
instituições que vem ensinado a Técnica Alexander
ao longo dos anos. O Verbier Festival & Academy
na Suíça e o Festival de Música de Campos do Jordão
no Brasil são alguns exemplos onde a Técnica Alexander
é apresentada. Yehudi Menuhin, maestro Colin Davis,
Paul McCartney, Sting, e James Galway, são alguns nomes
que já foram a público endossar este trabalho.
Voltando à questão dos músicos,
podemos observar que tocar um instrumento ou cantar
envolve a habilidade de coordenar pensamento, movimento
e expressão. Muitas vezes, na tentativa de se obter
um bom resultado, problemas posturais e de coordenação
são subestimados permitindo que padrões de tensão muscular
se estabeleçam e tornem-se habituais. Invariavelmente,
os músculos do pescoço se contraem excessivamente fazendo
com que a cabeça perca a sua posição natural no alto
da coluna, acarretando enorme contração de alguns grupos
musculares de sustentação do corpo.
A Técnica Alexander
não é um paliativo que se usa depois de um ensaio ou
antes de uma apresentação. É um instrumento valioso
em todas as etapas de trabalho do músico. Eles aprendem
a observar e a prevenir a automatização de hábitos neuro-musculares
que causam tanto um empobrecimento na prática do instrumento
quanto resultados nocivos à saúde. Este trabalho da
Técnica Alexander com músicos vem sendo realizado desde
1996 na Universidade do Rio de Janeiro (UNI-RIO) através
de Cursos de Extensão Universitária oferecidos pelo
Departamento de Música em convênio com os Seminários
de Música Pró-Arte. É a primeira vez no Brasil que uma
faculdade de música oferece periodicamente a seus alunos
aulas da Técnica Alexander.
Estes cursos têm dado condições
aos estudantes de desenvolver seu treinamento musical
paralelamente ao estudo da Técnica Alexander.
Seguindo o período letivo da universidade, as aulas
em grupo são ministradas semanalmente. O trabalho acontece
de forma individualizada. Os alunos praticam com seus
instrumentos passagens musicais que estejam trabalhando
em seus ensaios ou onde observam dificuldades na execução,
como tensão demasiada em determinadas articulações,
dificuldade de movimento em alguma parte do corpo ou
posturas inadequadas que levam a um incômodo geral.
É interessante observar que,
quanto mais experiência os alunos têm com a Técnica
Alexander, maior a capacidade de observação sobre
si mesmo e consequentemente maior a capacidade de pesquisa
com seus instrumentos. A cada semana os alunos trazem
novas informações sobre suas dificuldades e suas observações
de como preveni-las durante a execução musical. Este
processo transforma radicalmente a maneira de se pensar
sobre a prática musical. Os alunos tornam-se conscientes
de si como primeiro instrumento de trabalho e percebem
que qualquer modificação da prática só será possível
através de uma modificação no seu próprio uso do corpo.
Ao final do semestre, fica claro aos alunos que o curso
foi apenas o ponto de partida de uma nova etapa de conhecimento,
onde cada um, através dos meios praticados em sala de
aula, irá experimentar em sua vida romper com os limites
impostos pelos hábitos e interferências adquiridos ao
longo dos anos. Os resultados são bastante positivos
e os alunos consideram essa técnica de grande valia
no aprendizado e performance de suas artes.
Partes do texto
foram publicadas no Jornal O GLOBO, encarte do Jornal
da Família do dia 27 de Junho de 2004.
© Roberto Reveilleau
e Valeria Campos
(1)
STATnews, setembro de 97, Londres
Técnica
Alexander e Educação
"Se faz necessário educar a pessoa
como um ser total se quisermos promover mudanças fundamentais."
F.M. Alexander
Quando
pensamos na Técnica de Alexander, o que nos ocorre,
de imediato, é o alívio para o estresse, menor rigidez
muscular, postura equilibrada, movimentos mais leves
e bem coordenados, respiração livre, pensamento mais
calmo, etc. Tais mudanças são apenas conseqüências
de um trabalho que tem como base um processo educacional
mais amplo que, segundo o escritor Aldous Huxley,
seria concebido como "um tipo de educação totalmente
nova que influencie toda a extensão das atividades
humanas, desde a filosófica, passando pela intelectual,
a moral e a prática, até a espiritual - uma educação
que, por ensinar a crianças e adultos o uso correto
de si mesmos, iria preservá-los da maioria das doenças
e dos maus hábitos que os afligem hoje em dia: uma
educação cujo treinamento na inibição e no controle
conscientes forneceria a homens e mulheres meios psico-físicos
de comportar-se racional e moralmente; uma educação
que, em suas mais altas esferas, tornaria possível
a experiência da realidade absoluta."(1)
Partindo
desta perspectiva educativa, nós nos denominamos professores
e não terapeutas, e aos que nos procuram chamamos
de alunos e não clientes ou pacientes. Estabelecemos,
dessa forma, o tipo de relação apropriada para o trabalho
que queremos desenvolver. Nosso enfoque é na aprendizagem
e não no resultado, embora saibamos que este trabalho
pode ter como conseqüência uma melhora terapêutica
em diferentes níveis. Os resultados obtidos através
da Técnica de Alexander, portanto, não devem ser associados
a um tratamento físico ou psicológico, mas sim a um
processo de auto-conhecimento que se desenvolve a
cada aula, a cada minuto da vida do aluno. Neste processo
de educação, os princípios traçados por Alexander
norteiam o trabalho-- são princípios únicos que estão
sendo postos em prática há mais de 100 anos-- e a
atuação do professor é orientar o aluno para que aprenda
a parar de repetir maus hábitos neuromusculares adquiridos,
a deixar de interferir em mecanismos naturais de equilíbrio
e coordenação e a se tornar responsável pelo seu processo
de trabalho.
Estamos interessados em
desenvolver algo novo, para o qual não fomos educados;
algo que possa nos por em condições de lidar melhor
com as mudanças cada vez mais rápidas do meio em que
vivemos. Este algo novo somos nós mesmos, com o pensamento
consciente em nossas atividades cotidianas, com o
desenvolvimento da capacidade de estar presente ao
mesmo tempo que estamos envolvidos em nossos afazeres
diários. Somente assim podemos prevenir reações nocivas
ao nosso organismo. Por isso acreditamos que a Técnica
de Alexander não entra em confronto com nenhum outro
tipo de trabalho de desenvolvimento do ser humano,
pois estamos apenas ampliando o nosso potencial de
conhecimento sobre nós mesmos e não determinando maneiras
ou formas certas de executar esta ou aquela tarefa.
Este processo de educação
do indivíduo, que muitos associam a técnicas e filosofias
orientais, foi desenvolvido através de 9 anos de pesquisa
por Frederick Matthias Alexander (1869-1955), declamador
shakespeareano que, no final do século XIX, em função
de suas constantes apresentações teatrais, começou
a sofrer de problemas respiratórios e rouquidão. Observando
que sua voz voltava a funcionar melhor quando parava
de ensaiar e piorava quando retornava à sua atividade
normal, Alexander iniciou uma pesquisa usando a si
mesmo como objeto de observação. Pode perceber, então,
que o Uso que fazia de si mesmo afetava diretamente
o funcionamento geral do organismo; seus problemas
de voz e respiração eram apenas conseqüências de um
desequilíbrio total de seu corpo. A partir daí, desenvolveu
uma prática revolucionária com base na unidade psico-física
do Homem.
Neste aspecto, Alexander
foi um pioneiro, desenvolvendo um trabalho em que
a mente e o corpo se relacionam como uma unidade indivisível
e, portanto, qualquer problema nesta unidade só pode
ser solucionado através de um processo de reeducação
em que a mente consciente e o corpo estejam funcionando
de maneira harmônica.
Alexander, ao longo de
sua vida, foi percebendo que seu trabalho teria um
reflexo maior na sociedade se ensinado às crianças,
que, assim, poderiam manter todo o seu organismo livre
dos maus hábitos adquiridos e, conseqüentemente, dos
resultados nocivos à sua saúde física e mental.
Lembrando as palavras do
filósofo e educador John Dewey sobre o método desenvolvido
por Alexander: "O método não é um remédio, é uma
educação construtiva. Ele se aplica mais adequadamente
às crianças, à geração em fase de crescimento, de
modo que elas possam vir a possuir o quanto antes
na vida um padrão correto de apreciação sensorial
e autojulgamento. Quando uma parcela razoável de uma
nova geração tornar-se adequadamente coordenada, teremos
certeza, pela primeira vez, de que homens e mulheres
no futuro poderão postar-se sobre seus próprios pés,
dotados de um equilíbrio físico satisfatório, para
enfrentar com prontidão, confiança e felicidade, ao
invés de medo, confusão e descontentamento, os golpes
e contingências do meio externo."(2)
©
Roberto Reveilleau
(1) Huxley, A. "Busca dos Fins e Meios
pelos Quais". Publicação da Associação Brasileira da
Técnica Alexander, 1998
(2) Alexander, F. M. "Ressurreição do Corpo". Ed. Martins
Fontes, 1993, pg.190
Técnica
Alexander e Atividade Física
Nos
dias de hoje a atividade física é fundamental para
suprir as deficiências que a civilização nos impõe.
Cada vez mais os movimentos utilizados nas tarefas
diárias estão reduzidos devido aos avanços tecnológicos
(telefone sem fio, controle remoto, celular) enquanto
o aparente "conforto" das cadeiras, sofás e poltronas
nos fazem menos capazes de suportar o peso do nosso
próprio corpo. As atividades repetitivas são também
outro fator de desequilíbrio do corpo, e fazem parte
do nosso cotidiano. Por isso se faz premente buscar,
atividades especificas que supram este déficit de
movimento. .
Postura, equilíbrio e coordenação
“Condições foram criadas
para produzir um mau resultado, e um mau resultado
vai ocorrer enquanto tais condições existirem.”
J. Dewey, filósofo e educador
Apesar
de necessária, a prática de exercícios físicos, seja
natação, ginástica, musculação ou uma simples caminhada,
é ao mesmo tempo problemática já que, geralmente,
não temos uma exata noção de como nossos mecanismos
posturais estão funcionando. Acredita-se que movimentos
mal coordenados, vícios posturais e excesso de tensão
que se manifestam no cotidiano estarão presentes também
durante a atividade física o que pode ocasionar ou
acentuar uma série de problemas. Quando o corpo é
usado sem um nível satisfatório de coordenação e equilíbrio
a pratica de esportes e exercícios físicos também
será afetada: o aproveitamento não será o esperado,
o gasto de energia será maior que o necessário para
os resultados desejados e os risco de acidentes aumentado.
A desorganização muscular se manifesta lentamente
ao longo da vida, certos movimentos e posturas começam
a ser automatizados e passam a ser repetidos sem a
nossa atenção. Certos músculos começam a ser ativados
a todo o instante, mesmo em situações onde não há
uma demanda para isso, e os movimentos diários vão
se tornando cada vez mais rígidos.
A atividade física apenas
aprofundará estas desorganizações do corpo, já evidente
nas situações cotidianas. Seria como tentar reformar
e ampliar um prédio sem mexer nas fundações que estão
desequilibradas. Faz-se necessário, antes de qualquer
trabalho muscular, restabelecer uma harmonia nos mecanismos
posturais do corpo, caso contrário os riscos de acidentes
e lesões aumentarão e os benefícios do exercício físico
serão menores que o desejado. É fundamental que a
pessoa esteja com o equilíbrio e coordenação funcionando
em todo seu potencial para que a atividade física
beneficie todos os aspectos da saúde do indivíduo.
Princípios da Técnica
de Alexander na Atividade Física
"Não se reconhece que o excesso
de contração de certos grupos musculares associados
com o uso errôneo do controle primordial exerce uma
influência constante na formação de maus hábitos posturais..."
F.M. Alexander
Alexander(1) tinha a concepção
do ser humano como uma unidade psicofísica, ou seja,
qualquer problema em uma determinada parte do corpo
seria conseqüência de um desequilíbrio de todo o organismo.
A partir desta concepção de unidade, desenvolveu um
trabalho usando certos princípios que podem ser aplicados
a qualquer pessoa em qualquer situação.
Alexander observou que
as crianças tem uma facilidade de se movimentar com
um porte ereto e que a maioria dos adultos já não
manifesta esta qualidade. Ele identificou que o equilíbrio
da cabeça em relação à coluna vertebral, ao qual chamou
de Controle Primordial, é um fator fundamental para
uma coordenação adequada do indivíduo. A cabeça se
mantém em equilíbrio dinâmico no alto da coluna vertebral
apoiada na primeira vértebra cervical com o suporte
de certos músculos do pescoço que regulam continuamente
o ajuste da cabeça sobre o pescoço. Esta coordenação,
funcionando adequadamente, ativa a musculatura responsável
pelo suporte e alongamento do corpo, trazendo um melhor
equilíbrio de forças em relação à gravidade, fazendo
com que os reflexos posturais sejam ativados e os
movimentos sejam livres e harmoniosos sem sobrecarga
em determinadas partes do corpo ou grupamentos musculares.
A desorganização psicofísica
do ser humano começa em função das demandas do mundo
contemporâneo, onde as transformações são cada vez
mais rápidas e exigem adaptações constantes sem que
haja um tempo suficiente para isso e onde as respostas
que o indivíduo tem que dar para os problemas e situações
do dia-a-dia vão se tornando mecanizadas. Tudo isso
acaba por determinar certas interferências na relação
de equilíbrio da cabeça com a coluna vertebral. A
repetição incessante desta interferência causa um
desajuste da musculatura postural do corpo. Esta musculatura
mais profunda permite ao corpo se manter com um porte
ereto: não são músculos geradores de grandes movimentos
mas têm uma capacidade contínua de trabalho com enorme
precisão. Um exemplo são os músculos suboccipitais
que equilibram a cabeça em cima do pescoço (é importante
lembrar que o peso da cabeça é de aproximadamente
5kg).
O fato é que devido a esta
desorganização, certas musculaturas mais superficiais
que têm por função realizar determinados movimentos,
como pegar um peso do chão, acabam também sendo ativadas
para a sustentação e suporte do corpo. O uso contínuo
dos músculos superficiais para a manutenção da postura
cria uma série de distorções. Excesso de força muscular
não implica em sustentação e coordenação saudáveis
do corpo, é errada a idéia de que é necessário um
alto esforço muscular para manter um porte ereto e
que se tal esforço não for acionado, as costas "desabam".
Um outro princípio aplicado
ao trabalho, fundamental para o desportista, foi chamado
por Alexander de Apreciação Sensorial Imprecisa. Ele
observou que a repetição constante de padrões posturais
viciados leva a maioria das pessoas a ter uma percepção
sinestésica(2) falha sobre si próprio. Ou seja tais
padrões não são apenas físicos mas também influenciam
a maneira como sentimos e pensamos em relação ao corpo.
A falta de precisão das sensações leva o indivíduo
a usar os padrões de uso do corpo já armazenados na
memória, mesmo que estes não sejam os mais adequados
para as atividades exigidas. Esta falta de precisão
por exemplo pode levar o indivíduo a uma percepção
errada sobre o quanto de esforço muscular é necessário
para se fazer uma determinada atividade física ou
apenas para manter uma postura ereta.
A idéia que a maioria das
pessoas tem de se corrigir ou se ajeitar quando sente
que está em uma postura errada nada mais é do que
repetir padrões automatizados que ao longo dos anos
vão se tornando os únicos a serem utilizados. Isto
demonstra que por mais que se queira deixar de repetir
um determinado esforço na execução de um movimento,
como braços e mãos enrijecidos na corrida ou o excesso
de tensão na musculatura do pescoço nos exercícios
abdominais, a tendência será sempre a de reproduzir
os padrões errados já existentes. É comum nesta tentativa,
mudar a aparência de determinado movimento do corpo,
mas os padrões viciados do uso da musculatura continuarão
sendo os mesmos, apenas mais disfarçados.
A
sensação imprecisa pode pôr em risco a saúde do próprio
corpo, pois, sem uma noção exata dos limites físicos
e de como se utilizar o corpo para os exercícios exigidos,
sobrecargas de trabalho podem levar a graves conseqüências:
dores musculares, limitação de movimentos, enrijecimento
do pescoço, perda de rendimento, lesões nas articulações,
falta de controle muscular, dificuldades respiratórias,
desgaste dos discos intervertebrais, tendinites entre
outros.
Benefícios da Técnica de Alexander
A Técnica Alexander
nos faz entender como os hábitos corporais estão intrinsecamente
relacionados aos hábitos de pensamento, e por repetir
tais hábitos por toda a vida, a percepção do que realmente
acontece quando uma ação está sendo executada fica
imprecisa. Assim, só um trabalho contínuo de reeducação
integrando os aspectos físicos e a percepção que se
tem do próprio corpo, leva o indivíduo a identificar
e a desfazer quando necessário os padrões de uso dos
músculos, articulações, gestos e posturas. As aulas
regulares da Técnica Alexander criam uma nova memória
sobre o uso do corpo para que os antigos maus hábitos
possam ser substituídos por um uso mais eficiente
e menos propenso a desgastes e doenças. Isso também
estimula a recuperar a precisão das sensações que
temos sobre a postura e movimento, criando condições
para um ajuste contínuo e equilibrado do tônus muscular
necessário para as sobrecargas advindas do trabalho
físico. A cada novo desafio, o esportista fará os
ajustes necessários, dando condições ao seu organismo
de se adaptar da melhor maneira possível a nova atividade.
Com economia e precisão da atividade neuromuscular,
o desportista pode alcançar um melhor desempenho em
sua performance física.
O
diretor do American Physical Fitness Research Institute
Edward Maisel, comentando sobre os benefícios da Técnica
Alexander, ressalta: "Ocorre
uma flexibilidade geral e um alívio tônico do movimento,
maior liberdade na ação dos olhos, menos tensão nos
maxilares, mais relaxamento na língua e na garganta,
e uma respiração mais profunda como efeito do novo
alinhamento do diafragma. Ocorre ainda uma sensação
de leveza e uma diminuição do esforço anteriormente
considerado necessário para mexer os membros. A atividade
agora é mais livre e fluida - deixa de ser abrupta
e pesada devido à tensão."
©
Roberto Reveilleau
(1)
Frederick Mathias Alexander (1869-1955), foi um
ator e declamador Shakespereano que em sua juventude
começou a sofrer dificuldades respiratórias e rouquidão
durante as suas apresentações. Através de um processo
de auto-observação ele identifica que seus problemas
de voz e respiração eram apenas conseqüências de
um desequilíbrio total de seu corpo. A partir daí,
desenvolve uma prática de trabalho com base na unidade
entre mente e corpo, hoje chamada Técnica Alexander.
(2) Sinestesia é o sentido pelo qual se percebe
os movimentos musculares, o peso e a posição do
corpo no espaço
BIBLIOGRAFIA:
DEWEY J., in: Rickover R. The Complete Guide to
the Alexander Technique, www.alexandertechnique.com
ALEXANDER F.M., The Universal Constant in Living,
Ed. Mouritz, 2000.
CALAIS-GERMAIN B., Anatomia para o Movimento, Ed.
Manole, 2002.
MAISEL E., The Alexander Technique: The Essential
Writings of F. Matthias Alexander, Carol Publishing
Group, 1989.
LEDERMAN E., Fundamentos da Terapia Manual, Ed.
Manole, 2001
Hábitos
e mudanças posturais através da Técnica
Alexander
Não
há como negar a forte influência dos hábitos em
nossas vidas, em nossos movimentos e no uso do nosso
corpo. Ao longo dos anos, vamos memorizando determinadas
maneiras de usar o corpo que começam a se repetir
automaticamente e, assim, acabamos regidos por hábitos
em quase tudo o que fazemos.
Se pegarmos como exemplo
o hábito de dirigir um carro, percebemos que no
início do processo executamos os movimentos dos
pedais com uma certa dificuldade, pois temos que
pensar com muita atenção em como regular o uso dos
pés e ao mesmo tempo manter a atenção ao que está
acontecendo ao nosso redor. Com o tempo, esta experiência
vai sendo armazenada na memória e passamos a não
precisar mais pensar em todo este processo. Dizemos
então que a maneira que foi gravada pelo cérebro
é "a nossa maneira" de dirigir um carro. Se essa
maneira habitual desenvolvida para dirigir um carro
estiver criando algum tipo de problema, deteriorando
nosso desempenho, não temos mais como agir pois
todo esse processo parece agora fora do nosso controle.
Tendemos a achar que "é assim mesmo", "não tem jeito".
A mudança passa a ser algo que está além da nossa
responsabilidade.
De uma maneira geral
hábitos posturais e de movimento são reproduções
de experiências adquiridas desde criança. Vamos
assimilando todo tipo de experiências, boas e ruins,
através da postura habitual dos pais ou de comentários
de professores, de uma imagem na televisão ou em
uma revista, e estas experiências vão sendo traduzidas
pelo corpo através de posturas e movimentos e se
tornando automáticas. Mas muitas destas posturas
e movimentos tendem a criar excesso de contração
muscular em determinadas partes do corpo, limitação
de movimentos em certas articulações e compressão
na coluna vertebral trazendo conseqüências diretas:
dores musculares, cansaço constante, falta de vitalidade,
dificuldades respiratórias, sensação de peso, entre
outras.
Este processo de educação
do indivíduo, que muitos associam a técnicas e filosofias
orientais, foi desenvolvido através de 9 anos de
pesquisa por Frederick Matthias Alexander (1869-1955),
declamador shakespeareano que, no final do século
XIX, em função de suas constantes apresentações
teatrais, começou a sofrer de problemas respiratórios
e rouquidão. Observando que sua voz voltava a funcionar
melhor quando parava de ensaiar e piorava quando
retornava à sua atividade normal, Alexander iniciou
uma pesquisa usando a si mesmo como objeto de observação.
Pode perceber, então, que o Uso que fazia de si
mesmo afetava diretamente o funcionamento geral
do organismo; seus problemas de voz e respiração
eram apenas conseqüências de um desequilíbrio total
de seu corpo. A partir daí, desenvolveu uma prática
revolucionária com base na unidade psico-física
do Homem.
Quando acreditamos que
podemos mudar uma postura inadequada, como, por
exemplo, as costas curvadas ao ficarmos sentados
em uma cadeira, e decidimos nos posicionar numa
forma ereta que achamos ser a "certa", sabemos que
esta nova postura não resiste por muito tempo. Isso
porque a memória adquirida ao longo dos anos da
forma de sentar inadequada vai se manifestando e,
em poucos minutos, estamos de volta ao padrão postural
antigo. Os padrões neuromusculares armazenados são
ativados nessa hora e determinam a maneira de sentar.
Ou seja, qualquer tentativa de mudança direta, apenas
sobre a aparência física de uma postura ou movimento
não será efetiva, porque posturas e movimentos repetitivos
e automatizados estão relacionados com uma determinada
maneira de pensar.
O
processo de reeducação psicofísico chamando
Técnica Alexander joga uma luz sobre esta questão.
Esta técnica foi desenvolvida no final do século
XIX por Frederick Matthias Alexander (1869-1955).
Alexander, um ator australiano renomado, que desenvolveu
problemas de voz e respiração em função de suas
constantes apresentações teatrais. Após ficar impossibilitado
de trabalhar e sem respostas concretas da medicina
sobre seu problema, Alexander começou a observar
a sua maneira de usar seu corpo, percebendo que
vícios posturais e de movimento exerciam uma influência
negativa sobre sua saúde geral, embora suas conseqüências
imediatas fossem sobre sua voz e respiração.
Na
tentativa de resolver seus padrões posturais incorretos,
o ator verificou que apenas uma mudança externa
de posição corporal não era suficiente para exercer
qualquer influência positiva sobre o uso de sua
voz e respiração. Era preciso envolver todo o "organismo
psicofísico". Sua maneira viciada de usar a si próprio
era o principal fator da repetição de padrões incorretos
de postura e movimento. Alexander desenvolveu seu
trabalho sobre estas idéias, criando assim uma experiência
prática que ensinava ao indivíduo a possibilidade
de poder desfazer seus padrões habituais automáticos,
tanto físicos quanto mentais, que estão na raiz
de vários problemas relacionados à saúde.
As
aulas da Técnica Alexander desenvolvem habilidades
para empreendermos um processo de mudança de hábitos.
Aprende-se a identificar os padrões automáticos
de postura e movimento através de uma dinâmica de
movimentos simples do cotidiano como andar, falar,
sentar ou levantar de uma cadeira. Estes padrões
foram sendo adquiridos ao longo da vida e, a partir
da constatação de que estes háb |